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O motivo
Existir é atuar, fazer algo importante, de sentido... existir é Pensar.
Pensar... pensar é viajar pela mente, procurando soluções e ideias .
Escrever... É transmitir as ideias pro papel, é confirmar sua existência... é pensar.
Por isso existimos, pensamos e escrevemos.
[texto original de Sam Grangeiro]
Contemplando?
Bordel
Eu poderia fazer recortes sociais, tratar acerca de desigualdades, dizer o quão privilegiada e hipócrita eu seria em discorrer sobre prostituição trabalhando em um escritório para auxiliar nas despesas enquanto as mulheres capitalizam seus corpos pelo "pão nosso de cada dia"; enquanto garotinhas mimadas de internet discutem sobre prostituição ser a exploração mais brutal do sistema neoliberal ou se é a maior prova da autonomia feminina.
No entanto, o que me traz a este texto é a margem que nos separa. A linha invisível que corta a calçada da avenida. O contrato social que me impede de sequer olhar lá para dentro com meus olhos amendoados e curiosos de jovem adulta descobrindo o mundo por ser "moça de família". Mas nada pode parar minha mente quando acabo de almoçar e toca aquele Raça Negra no puteiro. Sim, puteiro, na maior imagética vulgar do vocabulário proibido a "moças de família". Um dia, toca Frank Aguiar; no outro, Pussycat Dolls... Mas, eu passando por ele ou não, o puteiro sempre está em seu pleno funcionamento.
Para uns, o antro de perdição da família tradicional; para outros, a fonte de renda. O prédio caindo aos pedaços traz as dúvidas da qualidade de condições trabalhistas naquele imóvel. Mas ele sempre está ali, esteve antes de mim e provavelmente estará depois que eu for trabalhar em outro endereço.
O pútrefe bordel talvez seja uma incógnita do impuro da própria curiosidade humana, cerceada por imposições morais e cívicas. Mas sempre olhamos para suas portas vermelhas e nos perguntamos o que há além.
Na verdade, o prostíbulo caindo aos pedaços somos nós, pedaços de desconhecimento de nossa própria mente. Aquilo lá é só um prédio mal conservado para comércios sexuais.
Asma
"Sou um retrato que tua mão revelou..."
Tua mão, que já tocou a minha, que já afagou meus cabelos, já afanou meus braços e seguiu cada contorno do meu rosto. Tua mão que foi tão tua quanto minha, mas no fundo não foi de ninguém, afinal, você sequer se pertence. Tua mão que prepara, tal qual um artífice, mais uma paixão de mentira para preencher seu coração vazio e gélido.
"Cópia barata do que eu acho que sou..."
Eu achei que fosse seu amor, achei ser feliz ao seu lado, achei que minha alegria contrabandeada a seu lado duraria bastante. Não fomos feitos pra durar, sequer chegamos perto disso. Agora, eu acho que eu sou só um borrão, um reinvento, uma cópia desbotada de alguém feliz e esperançoso que um dia eu fui.
"E sim, amor, eu sei que não devia."
(Texto baseado na música homônima de Visconde)
Sobre os gênios.
Parabéns, você conseguiu o que tanto quis. Quis tanto ser um gênio incompreendido, um cérebro avantajado, um aedo solitário em um mundo de ruídos sombrios que conseguiu.
Olha só pra você, tão desprezível com esse ar superior, se isolando da beleza do mundo para perder a vida entre artigos e acordes, olhando para todo mundo como se fossem o lixo da sociedade quando na verdade o resto de curetagem do mundo é você, ferindo as pessoas para compensar sua fraqueza física e psicológica, fazendo brotar a paixão nas pessoas enquanto seu coração é triste demais para conseguir fazer alguém feliz, querendo demonstrar muita maturidade mas no fundo sendo só um bebê chorão querendo colo.
Você não contava com o fato de que pessoas que você chamava de herois fossem apenas vermes arrastando os ventres em suas próprias agonias e comendo a poeira de um mundo imenso e pleno, não é? Pois este é o mundo e seu plano deu certo, só não reclame da dor de seu prêmio.
Não aceitamos devoluções.
Nem todos os dias de Sol, nem todos os lábios que você beijar, nem todos os corpos que você abraçar, nem todos os elogios que você receber e muito menos toda a vodka que você beber para te aquecer por dentro vai derreter o gelo da sua alma, contente-se com isso ou ouse ser um pouco menos desprezível que você e que todos os bons e maus que vieram antes.
Seja seu próprio heroi.
Condição.
São só palavras pra você; mas para mim, não. É a minha alma exposta em uma lente de aumento, são todas as cores que minha existência forma, tal qual um caleidoscópio, não se pode evitar que as verdades escapam de mim no abismo que há entre pensar e sentir.
Se pra você não é nada, são só palavras bobas que eu digo para o vento porque sou um tanto imbecil... Por favor, pense que palavras repetidas podem significar muita coisa, principalmente as minhas palavras repetidas pra você, pois motivo eu sempre dou.
Se despedir, depois se encontrar, sabendo que nunca vai mudar o frenesi que sinto na espera em te ver seguido da agonia instantânea em saber que só em meu cérebro tenho chances perfeitas para pedir o beijo que tanto quero de sua boca. Por mais que eu diga, você nunca parece crer na verdade das minhas palavras enquanto ocorre a condição de estarmos os dois aqui. Você, com tão pouco a dizer e eu fingindo e rindo enquanto ironizo minha desgraça não tão oculta.
Ora, tantas pessoas são mais sentimentais que eu; tantas pessoas torcendo para ter o teu amor por meses, anos ou uma eternidade - não sei - enquanto eu tenho a audácia de querer apenas um momento para guardar. Não preciso aceitar a condição de ter você só pra mim, só quero poder aceitar a tua boca na minha de um modo que beire entre a paixão explosiva e o acaso do nunca mais.
Queria TANTO te dizer...
(baseado nas músicas "Esteja Aqui" - Fresno - e "Sentimental" - Los Hermanos)
Joalheria.
Essa aliança no seu dedo... Eu queria ser ela. Ter seu olhar mais terno, sentir o calor da sua pele, ter o conforto do seu tato, estar contigo sempre, ser uma lembrança boas dos teus momentos que comigo nunca existirão.
Mas, em vez disso, eis-me aqui, como um diamante solitário, brilhando à toa por mendigarias da sua atenção, numa redoma aquém do seu alcance.
É muito triste ser como um diamante. Todos olham, sorriem, querem ter... Mas é raro surgir um ser de coragem e posses para adquiri-lo.
Eu seria feliz sendo sua aliança; contudo, me contento em ser um diamante na vitrine.
Tolice.
Foi tolice acreditar nesse jogo de sedução inconstante e ilusório; e, logo agora que eu tento me encontrar, a lembrança dos teus olhos faz minha mente se perder.
Você deve achar todo esse espetáculo muito divertido, mas não dá pra mim. Eu preciso fugir de todas essas sensações antes que você me deixe no fundo do poço, isso sim.
Eu vou ser feliz, e farei isso longe dos seus olhos de abismo. Então, por favor, me deixe em paz e não surja no caminho que eu trilhar. Eu tenho uma vida, e ela não te inclui.
Psicodelia
Tudo se confunde, não há sentido nos cinco sentidos. Sentir o olfato na pele, o tato na boca, os cenários com os ouvidos, os sussurros com os olhos...
Parece confuso demais quando o toque, mesmo que distante, permanece na pele; quando os sussurros ecoam no silêncio do sono e o gosto dos lábios entranha até nos talheres.
As cores se fundem, os corpos se anseiam. "Sentidos" não parecem ser explicativos quando por pouco se percebe o início de um e o fim do outro, numa atração forte como a gravidade atraindo a massa dos objetos ao centro da Terra.
Tudo parece se explicar e confundir em uma louca psicodelia à dois.
Corrida.
As horas correm no relógio, os dedos correm pelo touchscreen, as fotos correm pela tela, as palavras correm pela memória...Mas eu quero tanto que essa vontade de te conquistar corra para fora de mim!
Corra, salte, voe, qualquer coisa, mas tire teu rosto dos meus sonhos, por favor; mesmo que eu tenha que correr para longe de mim, para longe de minhas visões oníricas, vontades, inconsciências ou até mesmo de meus pesadelos.
Você... Não apenas sendo alguém específico ou algum infortúnio de um passado próximo ou pouco distante. Apenas você, alegria ou agonia, sei lá... Portanto, corra pra fora de mim como o pus corre para fora da ferida inflamada. Saia enquanto estaciono na realidade e fecho os olhos para a consciência.
Um dia, devo atingir o bom senso, nirvana, imunização racional, santidade, iluminação, estatura da perfeição divina ou seja lá como quiser chamar essa paz que eu preciso. Até lá... Há uma carreira a correr, há uma vitória a alcançar.
Vultos.
Todos iguais... Apenas sombras, nada mais. Queriam um relance, um jogo de luz, um flash repentino para assombrar o ambiente; e quando a luz do dia viesse, de repente, fugiriam como morcegos, cegos por sua natureza abissal.
Não eram diferentes, só eram insistentes. Ela fazia bem em evitá-los... Caso contrário, tornaria-se mais um vulto na penumbra.
Adeus.
Solidão
Sonho.
Esse sonho tem conteúdo, não é um dos muitos sonhos obsoletos e distorcidos. Tem também a voz da brisa da tarde, a beleza do pôr do Sol e a alegria do voo das borboletas em um jardim florido... Minha respiração se aprofunda, minha pulsação acelera e sinto o desejo de parar o tempo quando lembro de meu sonho soando em meus ouvidos.
Contudo, meu sonho me confunde. Me anima e entristece, não quer pertencer apenas à minha mente, quer ter mentes inatingíveis. Faz parecer que me quer, mas em seguida não dá a segurança de que posso lidar com sua complexidade e delicadeza.
Além da essência de todo sonho: está distante demais da minha realidade. Mas, não me importo, continuo a sonhar e viver, pois sei que um dia, viverei meu sonho; e quando esse dia chegar, aproveitarei cada instante, desfrutarei meu sonho após sonhar de olhos abertos em situações vãs, olhando olhos vazios, causando sorrisos temporários e provando lábios insípidos.
Nossa música
Fazia tempo que eu não ouvia essa música, fazia tempo que sua presença não me incomodava desse modo. Eu pensei que você tivesse sido apenas um figurante em minha vida, que você já tivesse passado e que seria fácil te tirar de cena...
Mas não me atentei ao fato de que paixões se vão, mas a música permanece. Não sei por quanto tempo mais vincularei cada estrofe e cada acorde dessa canção às nossas memórias, só sei que a paixão acaba, mas a música perpetua.
Talvez você nem pense mais em mim... Mas se você estiver escutando nossa música essa noite, eu já estarei feliz.
Delírio
Não digo que não vivo sem você, eu tenho vivido bem nesse ano, eu tenho minhas bases, eu não perdi meu chão, mas quando a dor vem e a febre aumenta, tudo o que eu ouço nessa sala vazia é o som da sua voz, tudo o que eu vejo nesse sofá é o seu corpo junto ao meu. NÃO PODE SER, EU ESTOU SÓ.
Mas a febre só me permite chorar e dizer não. Você é pior pra mim que essa febre, que eu sei que vai passar. O que resta de bom é saber que você não está aqui, é apenas uma alegoria psicológica, um delírio febril. (ou não).
Desapontamento.
Procura.
Como encontrá-lo?
Como vivê-lo?
Procuramos por toda parte,
Nos perdemos,
Nos ferimos...
Alguns passam meses,
Anos ou a vida inteira
Se iludindo e procurando-o.
Mas quem o encontra,
Sabe entendê-lo,
Sabe vivê-lo.
Apesar disso, todos os restantes,
Todos caçadores,
Todos iludidos seres
Procuram o amor entre olhares,
Entre os becos,
Entre as árvores;
Mas o amor está
Onde é mais árduo o alcance:
Dentro de nós.
Sair.
Sorrir amplamente à luz da Lua,
Sentir a brisa fria no rosto
E o asfalto nos pés.
Sem hora pra voltar
Nem ninguém para dar satisfação.
Hoje eu quero sair,
Jogar conversa fora e também um carteado,
Ouvir música e rolar uns dados,
Falar sobre o tempo, o futebol,
Ou das flores, pra não dizer que não falei delas.
Hoje eu quero sair,
Vagar em busca de um canto
Que não me lembre você.
Encontrar em qualquer parte
Uma ingênua distração
Para esquecer minha melancolia.
Hoje eu quero sair
De mim...
E demorar o quanto quiser para voltar.
Bandidas
Dessas que roubam seu coração,
Te sequestram e te deixam de mãos atadas.
Paixões bandidas que tomam
Tudo o que é seu
E até o que não te pertence.
Paixões bandidas que
Te deixam em temor constante
E desespero que desce pelo suor.
Paixões bandidas que acertam
Certeiramente seu coração
E acabam com a sua vida.
Cuidado com essas paixões bandidas.








